Diarréia crônica funcional

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Diarréia crônica funcional

As doenças gastrointestinais funcionais são definidas como combinações variáveis de sintomas gastrointestinais crônicos ou recorrentes, não explicados por anormalidades em exames complementares. Os critérios de Roma III para diagnóstico das doenças gastrointestinais funcionais são baseados em sintomas que tem em comum alterações motoras e/ou sensoriais da função gastrointestinal, e podem ocorrer em diferentes regiões anatômicas. Os sintomas ocorrem por desregulação em algum ou vários níveis do eixo cérebro-intestino, levando a uma resposta motora anormal reativa, associada a distúrbios da sensibilidade. A diarréia funcional ou diarréia crônica inespecífica da infância é uma das doenças funcionais na infância.

A diarréia funcional é a causa mais comum de diarréia crônica em crianças menores de 4 anos de idade, sendo considerada um padrão de apresentação da síndrome do intestino irritável na faixa etária de 6 meses a 4 anos. Não tem causa estrutural ou bioquímica subjacente, ou seja, todos os exames complementares são normais; não altera o estado geral ou nutricional da criança, pois a absorção dos nutrientes é normal, chegando ao cólon apenas o material a ser eliminado (grande parte é fibra alimentar insolúvel), e a criança se alimenta adequadamente; e na imensa maioria dos casos tem evolução benigna e autolimitada até a idade escolar. A criança evacua geralmente 3 a 5x/dia, sendo a primeira evacuação mais volumosa e formada que as demais, fezes com muco e/ou restos alimentares visíveis (coloridos e “areia” = grão de amido).

A diarréia cronica é causada por aumento da motilidade intestinal, com redução do tempo de trânsito intestinal. O aumento da motilidade do intestino delgado determina a chegada mais rápida, ao cólon, de resíduos alimentares não absorvidos (visíveis nas fezes) e também de sais biliares, que estimulam a motilidade colônica. Diminui, portanto, a reabsorção de água e as fezes ficam mais aquosas; a água eliminada a mais não causa desidratação, pois pequeno aumento na quantidade de água não reabsorvida já provoca o aspecto mais líquido, tendo em vista que o teor aquoso habitual é de 75% da massa fecal.

A alteração da motilidade intestinal é desencadeada por mudanças dietéticas inadequadas e, sobretudo, prolongadas, geralmente utilizadas no tratamento de diarréia infecciosa prévia, como diminuição da ingestão de gorduras e de fibra alimentar, acelerando o trânsito intestinal; aumento na ingestão hídrica; e aumento na ingestão de sucos de frutas (maça, pera e uva), com diarréia por fermentação da frutose não absorvida pela ausência do carreador específico nos enterócitos de lactentes e pré-escolares. A diarréia cronica funcional pode ser exacerbada por estresse, intolerância à lactose ou sacarose, ingestão de alimentos “fermentativos” como feijão, lentilha, grão de bico, ervilha, brócolis, repolho e rabanete, consumo excessivo de alimentos dietéticos com sorbitol, de menta, café, refrigerantes e chicletes, supercrescimento bacteriano, medicamentos com opiáceos (presentes nos analgésicos e xaropes para tosse) e antibióticos.

Tratamento da diarréia

O passo inicial fundamental do tratamento da diarréia crônica funcional é tranquilizar a família, dando as explicações pertinentes para que não se impressionem com a diarréia nem com os restos alimentares nas fezes. Reintroduz-se a alimentação normal, corrigindo-se eventuais desequilíbrios. A dieta deve ser rica em fibras solúveis (= goma acácia, goma xantana e pectina), que desaceleram o trânsito intestinal e absorvem muita água, aumentando a consistência das fezes, e insolúveis para dificultar a eventual evolução para constipação, e com bom aporte de gordura, que além de também desacelerar o trânsito delgado, retarda o esvaziamento gástrico, promovendo certa melhora na diarréia, mesmo que ocorram alguns surtos de fezes aquosas.

As fibras solúveis são encontradas nas leguminosas (feijão, lentilha, grão de bico e ervilha), sementes, farelos (aveia e arroz), cereais integrais (milho, cevada, centeio e soja), frutas (polpa de maça, laranja, banana), couve-flor, cenoura e batata. Perceber que alguns alimentos indicados para o tratamento podem desencadear diarréia em alguns pacientes. Sempre que forem dados, deve-se observar o padrão das evacuações, para determinar se são ou não benéficos para o paciente. São eles: feijão, lentilha, grão de bico, ervilha, milho e maça.

Não oferecer líquidos em excesso. Dar água para matar a sede, em vez de sucos, e dar as frutas em natura, com a casca e bagaço sempre que pertinente. Sucos, quando oferecidos eventualmente, devem ser os de frutas espremidas e não os comerciais e devem acompanhar as refeições em vez de ser oferecidos nos intervalos, para evitar que diminua o apetite para as refeições e também para evitar que a criança os tome em excesso apenas porque gosta.

Estas medidas normalizam o aspecto fecal rapidamente. Caso não haja resolução com a dieta normal, acrescenta-se uma colher de sopa de óleo (azeite de oliva) a cada prato de comida e, caso haja resistência ao tratamento, um diário alimentar e fecal ajuda a mostrar que não são alimentos específicos os responsáveis pela alteração. Tratamento medicamentoso só tem efeito enquanto ministrado, portanto não está indicado, a não ser em situações excepcionais.


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